Longa de estreia de Rafael Lobo, que revira as origens da capital federal, integra a Mostra Competitiva de Longas-Metragens do festival pernambucano
Sob as águas do Lago Paranoá se esconde um mistério que remonta às origens de Brasília e ainda assombra a geometria planejada da capital federal.
É desse encontro entre memória histórica e narrativa fantasmagórica que surge MAPAS, primeiro longa-metragem dirigido por Rafael Lobo. Produzido pela Machado Filmes em parceria com a Tao Luz e Movimento e a Levante Filmes, o filme terá sua estreia nacional na próxima edição do Cine/PE.
A trama acompanha a professora Júlia e o estudante de mestrado Sérgio na busca por pistas sobre o desaparecimento de uma mulher. A investigação conduz os protagonistas às ruínas de um povoado que abrigava trabalhadores envolvidos na construção de Brasília, trazendo à tona o passado submerso da cidade.
MAPAS “dá vazão ao meu interesse pelo horror, gênero que me fascina desde a infância, quando assistia sozinho, nas madrugadas, a imagens que pareciam tão potentes e transgressoras”, explica Lobo.
Segundo o cineasta, o contato dos personagens com essas memórias inundadas os coloca diante de seus próprios fantasmas: “entidades que se entrelaçam diretamente com os traumas mais profundos de cada personagem e que se refletem, em última instância, nas cicatrizes da história de Brasília”.
Selecionado para a Mostra Competitiva de Longas-Metragens do Cine/PE, MAPAS terá suas primeiras exibições no Recife entre os dias 1º e 7 de junho.
SINOPSE: Júlia e Sérgio partem em busca de Rebeca, uma cicloativista desaparecida, atravessando Brasília, uma cidade marcada por silêncios e histórias soterradas. A investigação os leva a tragédias esquecidas, onde ruínas, memórias e presenças inquietantes se entrelaçam. Entre o real e o fantástico, MAPAS se constrói como uma travessia por fantasmas do passado que ainda ecoam no presente.
O DIRETOR: Sócio das produtoras Levante Filmes e Tela Azul, Rafael Lobo é graduado em Audiovisual e mestre em Comunicação pela Universidade de Brasília (UnB). Em sua pesquisa acadêmica, analisa a obra do diretor David Cronenberg a partir de um cruzamento entre filosofia e horror, eixo que atravessa grande parte de sua filmografia. Sua estreia como diretor e roteirista foi com o curta Confinado (2010), que lhe rendeu prêmios de direção e montagem. Em seguida, fundou o Espaço Laje ao lado de outros artistas de Brasília, experiência que deu origem ao curta Palhaços Tristes (2013).
Em Bartleby (2016), inspirado na obra de Herman Melville, Rafael utiliza o horror para explorar tensões políticas e existenciais ambientadas na capital federal. Brasília e suas memórias também estão no centro do documentário Luis Humberto:
O Olhar Possível, codirigido com Mariana Costa, e do curta Xarpi (em finalização), inspirado pelo universo do slasher. Seu primeiro longa-metragem, MAPAS, contemplado pelo FAC-DF e coescrito com Lucas Gehre, foi selecionado para a 30ª edição do Cine PE. O filme revisita eventos traumáticos ligados à origem de Brasília, utilizando convenções do horror para refletir sobre a memória e os fantasmas da cidade.
A VISÃO DO DIRETOR
“A inspiração para a realização de MAPAS vem de um lugar muito pessoal, enraizado em minha jornada acadêmica e artística. Minha incursão autoral no cinema começou com meu trabalho de conclusão de curso de graduação na UnB, o curta-metragem Confinado. O filme dá vazão ao meu interesse pelo o horror, um gênero que me fascinou desde a minha infância quando assistia sozinho nas madrugadas aquelas imagens que pareciam tão potentes e transgressoras.
Aprofundar meu conhecimento sobre o horror através de um mestrado focado na ‘cosmovisão de horror’ foi fundamental para minha compreensão das complexidades artísticas e filosóficas desse gênero.
Influenciado pelo trabalho do cineasta David Cronenberg, explorei os medos humanos e o mistério do desconhecido de uma forma que me proporcionou uma apreciação do papel crítico que o horror desempenha na sociedade por meio de suas alegorias sociais.
Como seguimento deste meu trabalho no gênero, em MAPAS, trago minha ligação pessoal com Brasília, como parte da primeira geração de brasilienses e estabeleço um diálogo com o horror para realizar uma cosmovisão crítica de Brasília.
Para tal fim, o filme utiliza a fantasmagoria para propor uma alegoria originária, onde o passado da capital assombra o seu presente.
No entanto, tal uso está menos interessado nos efeitos de horror sobrenatural, do que em compor uma metáfora psicológica para os conflitos de suas personagens.
Os ‘fantasmas’ que assombram os protagonistas, como o avô de Rebeca, a irmã de Sérgio e a mãe de Júlia, são entidades que se entrelaçam diretamente com os traumas mais profundos de cada personagem e que se refletem em última instância nas cicatrizes da história de Brasília.
Nesse contexto, as ruínas da Vila Amaury, um povoado habitado pelos construtores da capital e que agora subjaz sob as águas do Lago Paranoá, emergem na trama como símbolo vívido desses traumas latentes que afloram à superfície. A sugestão de que a investigação do paradeiro de Rebeca é guiada por símbolos místicos, assim como pelas influências fantasmagóricas, coloca o filme no campo do fantástico.
Essa abordagem não apenas desafia as fronteiras entre o real e o imaginário, mas também cria uma atmosfera de estranhamento que permeia a experiência cinematográfica. À medida que o filme explora esse terreno ambíguo, ele lança luz sobre a natureza fugaz da realidade e abala as noções tradicionais de verdade questionando a história ‘oficial’ de Brasília e dando voz aos ‘esquecidos’.
ELENCO
Beta Rangel | Júlia
Caique Copque | Sérgio
Bianca Terraza | Sofia
Murilo Grossi | pai de Júlia
Adriana Lodi | mãe de Júlia
Chico Sant’Anna | velho
Gabriela Correa | voz de Rebeca
Bete Virgens | Dona Antônia
Jiló Medeiros | irmã de Sérgio
Pâmela Germano | Flávia
Du Oliveira | Biu
Manu Gioieli | Nanda
Natália Vieira | Rebeca
FICHA TÉCNICA
Direção | Rafael Lobo
Roteiro | Lucas Gehre, Rafael Lobo
Produção | Alisson Machado
Direção de Fotografia | Emília Silberstein
Direção de Arte | Lucas Gehre, Nadine Diel
Figurino | Claudia Wiltgen
Caracterização | Eduardo Barón
Trilha Sonora | Ricardo Ponte, Olivia Hernández
Montagem | Rafael Lobo, Tainá Menezes
Design de Som | Olivia Hernández
Mixagem | Micael Guimarães
Produção | Machado Filmes
Coprodução | Tao Luz e Movimento, Levante Filmes
Duração | 115 minutos
País e ano de produção | Brasil, 2026
SOBRE A MACHADO FILMES
Produtora de cinema independente sediada em Brasília, a Machado Filmes desenvolve projetos audiovisuais da concepção à finalização, acompanhando todas as etapas do processo criativo em parceria com os realizadores. Realiza conteúdos autorais, transitando entre ficção, documentário e experimental. Com interesse em obras voltadas para transformações sociais, artísticas e culturais, a Machado Filmes é movida pelo desejo de contar boas histórias, debater narrativas e pensar o audiovisual a partir de diferentes perspectivas.
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